Teve hoje o seu termo a vida de José Hermano
Saraiva.
Homem superior, com um sentido de Pátria digno de
admiração, conhecedor e de uma eloquência magnífica.
Tenho dito, há já algum tempo, que é das pessoas
que mais admiro e das poucas, pouquíssimas, que há "de jeito" na televisão. Tinha, desde que comecei a interessar-me por História,
a ideia tola (revelo-o agora) de um dia vir a conhecê-lo pessoalmente.
Lembro-me (lembramo-nos todos!) de, quando eu era
mais novo (e mais recentemente), ver os seus programas e ouvir comentários de
pessoas mais velhas como “este homem sabe!” (li algures que não usava teleponto
nas gravações); de reparar na forma sui
generis de gesticular para a câmara; de ser carinhosamente imitado nos
programas de humoristas; de diálogos entre personagens/personalidades das suas
histórias relatados em discurso directo e linguagem simples e acessível; das
frases, com carácter de opinião, com que terminava o programa, ditas em voz
mais baixa e grave; do que dizia nas entrelinhas do seu discurso (dicas para os
actuais dirigentes?); das histórias da História - quase insignificantes, meras
curiosidades das terras e das gentes, mas que são a alma deste povo – que ele
contava…
Os 20 minutos dos seus programas são um verdadeiro
tesouro no meio da tanta inutilidade que mina a televisão portuguesa. Vinte
minutos com coisas para aprender. Verdadeiros e grandiosos documentários, odes
à Pátria. Não são uns documentários quaisquer de um Discovery Channel ou Canal
História. Esses tanto servem cá como na China. Os programas do Professor são
nossos, e quase só nossos. E mais que lições de História, lições de Vida (sou
da opinião que para termos sucesso na preparação do futuro, temos que nos
conhecer como povo, e para isso, recorremos ao passado).
Aprendemos com ele que a História é feita de
acontecimentos e de heróis, Homens que se destacaram por algo que disseram ou –
ainda mais – fizeram. Homens que, se fossem como os demais, não seriam
lembrados após o seu ocaso. Mas são. Foram, em alguma coisa, mais que o comum
mortal. Chamo-lhes imortais, pois a sua vida é parte activa no Agora, a sua
memória perdura para além da morte física. E perdura porque fizeram algo que é
raro no ser humano: dedicação e entrega aos seus, por vezes em prejuízo de si
próprio. E, na História de um país, “os seus” é a Pátria.
José Hermano Saraiva fê-lo. Foi um Professor de
História cuja sala de aula era composta por um país inteiro, durante quatro
décadas.
Ele é, sem dúvida, parte da História que nos
ensinou.
Ensinou-nos o nosso passado. Ensinou-nos no
presente. E quanto ao futuro?
«Qualquer que seja o Futuro, haverá sempre noites de luar, a serra de Sintra e o Tejo a correr para o mar!»
